Que mudança de fato muda?

Espalha-se, como se fosse um vírus da moralidade, a versão de que a sociedade mundial não será mais a mesma após a pandemia devastadora instalada. As fraturas do existencialismo estão expostas.

 

 

O #fiqueemcasa simboliza de modo indicativo o panorama social dos dias presentes e faz com que as pessoas se vejam diante de algo inusitado: o modus solidão em que se agitam e a convivência familiar em tempo integral, os dois polos de uma mesma situação, cujo pano de fundo é impedir que o covid-19 exploda numericamente e leve de arrasto o precário sistema hospitalar.

Uma das condições deste novo estado de coisas, à parte todas as questões médico-sanitárias previstas e previsíveis, é que a população se vê diante de um estado de coisas tal que, queira ou não, impõe reflexões que desencadearão mudanças. Daí o dizer que a sociedade não será mais a mesma após a pandemia. De fato, vê-se situações até pouco tempo não mais consideradas, esquecidas que ficaram no fundo do baú das experiências vividas. Oportunidades de mudanças reais são historicamente encontradas no passado e no presente, mas nenhuma delas conduziu a mudanças de tal ordem como as que estão sendo propaladas, caso contrário a presente situação não seria tão surpreendente quanto se mostra.

Vamos mudar? Sem dúvida, mas a que profundidade, sob qual dimensão e proporção? O preço da mudança estamos vendo nas vidas ceifadas diariamente. Duas dessas dimensões recolherão, sem dúvida, diversas modificações: a dimensão individual e a dimensão coletiva, pois as mudanças precisadas, ansiosamente esperadas de modo a expressar uma nova ordem social deve-se passar nestes dois planos da vida. Ambas, porém, diferem entre si, ou seja, não serão iguais em suas dimensões, mesmo porque toda e qualquer mudança que não tenha como foco principal a consciência tende a perder-se no éter das fragilidades humanas.

Exemplos de uma nova possibilidade social surgem em diversos setores, como o político, o econômico e o dos direitos humanos. Os sistemas econômicos em seus diversos modelos, encontram-se em cheque, ensinando que há razões suficientes para alterar a crença de que a justiça social depende das trocas de bens e serviços precificados monetariamente numa condição liberal ou na imposição autoritária dos sistemas autocráticos. Tudo indica que se houver vontade nenhuma barreira será impedimento intransponível a uma verdadeira e humana justiça social. O diabo é que a vontade está pendurada a uma consciência geral dos direitos e deveres, cuja ausência pode ser sentida de modo incontestável na maneira como o poder, exercido por poucos, submete tantos. Temos, ainda hoje, restos de escravidão física e muito de escravidão moral.

O exemplo econômico pode ser visto em outras dimensões da vida, como as condições sanitárias da população, o acesso à saúde, ao trabalho, à moradia, ao bem-estar etc. Todos eles estão de igual forma em cheque, pois a sociedade está doente e quando a doença nos alcança impõe suas condições e nos mostra a face nua e crua da finitude da vida material. Diante dessa finitude, a preservação da vida desperta no íntimo de cada um, fazendo ver que toda a segurança pensada não passa do sopro da natureza, mais forte e poderosa que qualquer sistema convencionado ou crença auto estabelecida. A reflexão é automática quanto se está diante da iminência da queda definitiva no túmulo escuro do vazio.

A quantos aproveita a situação presente, em termos de mudança na direção de uma nova e profunda consciência? Di-lo-á o futuro imediato, quando as condições reais retornarem, mas, certamente, nem no plano individual e nem no coletivo veremos uma nova e ampla consciência, como se obtida de um salto, em confronto com tudo o que ensina a natureza e suas leis sólidas e solidárias. E, no entanto, só uma consciência produtora de uma verdadeira vontade poderá instalar uma ideia profunda de que o bem, o bom e o belo são direito e condição única para a felicidade social.

A crença irracional está aí, também, para ensinar, uma vez que a muitos agrada a ideia de catástrofe premeditada e planejada pelo poder divino. E disso fazem bandeiras, de modo a assustar as almas frágeis, como se o castigo divino estivesse tremulando no céu das esperanças perdidas, fazendo com que o poder de Deus se mostre mais uma vez ante as criaturas pecadoras. No entanto, cataclismas, fenômenos telúricos e também pandemias estão presentes na natureza de todos os tempos e não é racional indicar que sejam manejados pela divindade nos momentos de sua irascibilidade com os seres humanos, por conta de suas condutas pecadoras.

Daí ser preciso cuidar para que tantas e supostas mensagens mediúnicas, as quais ferem os princípios espíritas por suas previsões sem base, não circulem como se fossem documentos definitivos apontando-nos o paredão diante do qual devemos capitular por nossas faltas frente a divindade ou os espíritos superiores. A vida humano-espiritual, ensina a doutrina espírita, não está vinculada de modo definitivo às catástrofes naturais, nem aos seus eventos ocasionais, bem como não é efeito de uma causa profetizada que não se levou a sério. Não há uma nova Sodoma nem Gomorra impondo moralidade alcançada por simples aceitação da fé e da graça. Mudanças não resultam de influxos exteriores impondo substituição; são, sim, frutos da reflexão e de muita vivência, única maneira de sua concretização no âmago da consciência. E consciência individual e coletiva, que se realizam em paralelo, uma fortalecendo a outra e, abraçadas, elevando o seu nível ao longo das vidas sucessivas.

Wilson Garcia, São Paulo, SP

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